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Após o percurso de mais de 500
km, cheguei ao meu sertão calejado, rejeitado e mal cuidado por aqueles que só o
olham em proveito próprio, dizimando os desejos e a esperança dos pequeninos e
dos homens de bem.
Foi uma procura intensa... Foi o
encontro do filho com a sua terra-mãe-querida, onde a mistura de revoltas e de
sonhos permaneciam vivos, como os tempos deoutrora...
Vi arbustos e gravetos, rodeados
pelos urubus, únicos pássaros que por cima daquele quadro desolador voavam a
espera da carnificina anunciada...
As águas, antes armazenadas em
grandes açudes, hoje transformadas em pequenas poças de lágrimas, denunciavam a
tristeza e a falta de chuva naquela região sofrida e esquecida pelos desmantelos
contínuos...
A solidão batia nas casinhas
fechadas na beira das estradas, sem o sorriso das crianças e a prosa dos
adultos em suas calçadas...
Os cães e os gatos raquíticos
dormiam e miavam nas sombras quentes das calçadas mal assombradas pela ausência
dos transeuntes.As vacas ruminavam a sua própria saliva. Não vi as crias, apenas as galinhas magras
cozidas e expostas nos pratos de um cuscuz pálido, em bares e restaurantes dos
comerciantes,os quais lutavam, em desespero, em prol do ganha-pão de cada dia...
Vi o tudo daquilo que não queria
ver... Mas, mesmo assim, fui ao seu encontro... Estava pronto para encarar
aquela realidade e matar a minha saudade...
Entre as intempéries climáticas,
crucificadas pela mãe-natureza e pelas ações do homem, não desisti. Vesti-me de
vontades ede emoções para alcançar o brilho natural da beleza e da
simplicidade, não obstante aquele quadro tórrido e sofrido...
Cruzei as serras azuis que,
herdadas pela distância do meu olhar, convidavam-me para um passeio... As
nuvens, tão branquinhas e vivas sorriam para mim, através dos seus desenhos
feitos pelas mãos de Deus...
Aquele mundão de terra; os
lajedos genuínos e a nudez dos relevos desnivelados eram a pureza daquele
cenário perfeito... Mesmo assim, suas entranhas foram cortadas pelas estradas
asfaltadas para dar passagem ao progresso disfarçado e propagado pelas grandes
empresas, postos de gasolina entre outros empreendimentos...
A tecnologia ali chegou.
Internet; cartões de créditos, sendo a nova moeda; carros luxuosos desfilando
pela cidade.
As cidades cresceram junto com os
prédios, além do desemprego e da falta de oportunidades, já existentes,com a
violência; a prostituição e as drogas...
O sermão da igreja era o mesmo...
A reza, também...As atitudes das pessoas é que divergiam das crenças, das
devoções e dos cumprimentos das penitências prometidas pelos seus fiéis pecadores...
E eu, naquele dilema, sob os
primeiros raios dosol, acordei-me e fui merecedor da contemplação do quadro
mais bonito que nunca tinha visto antes, mas naquele momento pude captar: a
névoa ingênua que cobria uma serra distante, inerte a tudo queali estava
acontecendo, ensinando-me o verdadeiro sentido da existência do nosso Criador...
João Pessoa, 30 de outubro de
2013 – 08h10min.
José Ventura Filho

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