sexta-feira, 1 de novembro de 2013

ENTRE SONHOS E REVOLTAS

                               
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Após o percurso de mais de 500 km, cheguei ao meu sertão calejado, rejeitado e mal cuidado por aqueles que só o olham em proveito próprio, dizimando os desejos e a esperança dos pequeninos e dos homens de bem.

Foi uma procura intensa... Foi o encontro do filho com a sua terra-mãe-querida, onde a mistura de revoltas e de sonhos permaneciam vivos, como os tempos deoutrora...

Vi arbustos e gravetos, rodeados pelos urubus, únicos pássaros que por cima daquele quadro desolador voavam a espera da carnificina anunciada...

As águas, antes armazenadas em grandes açudes, hoje transformadas em pequenas poças de lágrimas, denunciavam a tristeza e a falta de chuva naquela região sofrida e esquecida pelos desmantelos contínuos... 

A solidão batia nas casinhas fechadas na beira das estradas, sem o sorriso das crianças e a prosa dos adultos em suas calçadas...

Os cães e os gatos raquíticos dormiam e miavam nas sombras quentes das calçadas mal assombradas pela ausência dos transeuntes.As vacas ruminavam a sua própria saliva.  Não vi as crias, apenas as galinhas magras cozidas e expostas nos pratos de um cuscuz pálido, em bares e restaurantes dos comerciantes,os quais lutavam, em desespero, em prol do ganha-pão de cada dia...   

Vi o tudo daquilo que não queria ver... Mas, mesmo assim, fui ao seu encontro... Estava pronto para encarar aquela realidade e matar a minha saudade...

Entre as intempéries climáticas, crucificadas pela mãe-natureza e pelas ações do homem, não desisti. Vesti-me de vontades ede emoções para alcançar o brilho natural da beleza e da simplicidade, não obstante aquele quadro tórrido e sofrido...

Cruzei as serras azuis que, herdadas pela distância do meu olhar, convidavam-me para um passeio... As nuvens, tão branquinhas e vivas sorriam para mim, através dos seus desenhos feitos pelas mãos de Deus...  

Aquele mundão de terra; os lajedos genuínos e a nudez dos relevos desnivelados eram a pureza daquele cenário perfeito... Mesmo assim, suas entranhas foram cortadas pelas estradas asfaltadas para dar passagem ao progresso disfarçado e propagado pelas grandes empresas, postos de gasolina entre outros empreendimentos...

A tecnologia ali chegou. Internet; cartões de créditos, sendo a nova moeda; carros luxuosos desfilando pela cidade. 

As cidades cresceram junto com os prédios, além do desemprego e da falta de oportunidades, já existentes,com a violência; a prostituição e as drogas...

O sermão da igreja era o mesmo... A reza, também...As atitudes das pessoas é que divergiam das crenças, das devoções e dos cumprimentos das penitências prometidas pelos seus fiéis pecadores...

E eu, naquele dilema, sob os primeiros raios dosol, acordei-me e fui merecedor da contemplação do quadro mais bonito que nunca tinha visto antes, mas naquele momento pude captar: a névoa ingênua que cobria uma serra distante, inerte a tudo queali estava acontecendo, ensinando-me o verdadeiro sentido da existência do nosso Criador...

João Pessoa, 30 de outubro de 2013 – 08h10min.
José Ventura Filho

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