terça-feira, 12 de maio de 2015

CASA DE TAIPA




/Ela é feita com carinho e trato/
/De barro forte, palha e estaca,/
/Fica sempre no meio do mato;/
/Sua estrutura é o que destaca./

/Na entrada, uma porta; uma janela;/
/Um pé de flor. Sejaqual tipo que for./
/E lá no seu interior um brilho intenso,/
/Vindo daquele abraço tão acolhedor./


/Não tem número de identificação./
/As redes penduradas nas paredes /
/Para pescar,adormecer e sonhar/
/Acolhem o sono, a fome e a sede./

/Um candeeiro de lata de flandres,/
/Com querosene e de longo pavio,/
/Bem posto em uma meia- parede,/
/Ilumina os cômodos, em desafio./

/Também tem um radio de pilha/
/Para ouvir as notícias e cantorias/
/Que acalentam a dura distância /
/Entre sonhos e arotina dos dias./

/Uma quartinha no canto da sala/
/É coberta por um pano bordado;/
/O bornal, a foice e a espingarda/
/Aguardamo destino procurado./

/O fogão de lenha ou coivara teima/
/Em queimar aquele feijão de corda,/
/Com o pedaço de toucinho magro,/
/Na panela de barro, até sua borda./



/O pote guarda o líquido precioso. /     
/O pilão, próximo ao pé do moinho,/
                                                               /Ambos inimigos do café e do milho/
                                               /Os mastigam sem dó, em desalinho,/

/Em seu oitão, um pé de pião roxo/
/Para espantar agouros vindouros;/
/Uma enxada já muito enferrujada/
/Espera a chuva, o melhortesouro./

/Alguns passarinhos ali aparecem /
/E cantam as tristezas em sinfonia;/
/Calangos se arrastam lentamente./
/As cobras cobram a comida do dia./

/A lagartixa se arrasta na cumeeira,/
/Empreendendo caçada aos insetos;/
/O sapo-cururu emseu canto incha,/
/Engolindo faísca ou outros objetos. /

/Tamboretes fornidos de madeira/
/Testemunham as prosas da noite,/
/O brilho triste de todas as estrelas /
/E aquele vento quente em açoite./



/Os pés de jurema dão pena de se ver;/
/Verde por fora que lá dentro choram/
/A sina provocada pelamãe-natureza/
/E pela avareza dos que ali não moram./

/O pé de mandacaru anuncia à seca;/
/O urubu passeia lá no céu cinzento;/
/O jumento na estrada em linha reta /
/Carrega seu dono em seu desalento,/

/Um rangido triste e seco da cancela/
/É a certeza de uma partida sentida /
/E a incerteza perdida lá dentro dela/
/Que emoldura aquela casa erguida./

/Os morcegos em seusvoos noturnos/
/Procuram água, refúgio e alimentos;/
/A rasga-mortalha em um pau d’arco,/
/Em silêncio, vigia funestoseventos./

/A lua em cima da serra acinzentada/
/Traz o clarão daquela luz prateada,/
/Iluminando, por inteiro, o terreiro,/
/Aquele bem varrido, sem a calçada./



/É o porto de sofrimento e solidão/
/Que traz à merecida companhia/
/Os filhos franzinos e pequeninos,/
/Seminfância digna e sem alegria./

/Mesmo sendo pobre esta casa nobre,/
/Tão longe do conceito do bem-estar,/
/Tem a luz própria que Deus lhe cobre/
/E lhe dá o valor verdadeiro de um lar./

                                                               João Pessoa, 07 de maio de 2015 – 00h26min.

                                                               José Ventura Filho

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